Mari Camardelli: Design de Experiência para Eventos

Entrevistamos Mari Camardelli, fundadora da Altos Eventos sobre um novo olhar sobre o nosso trabalho de organizador de eventos. E ficou demais! Leia, porque essa mulher tem muito a ensinar.

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1. De onde surgiu esse conceito de Event Design? Parece uma coisa bem nova, não se fala tanto por aí.

O conceito em si confesso que não sei de onde surgiu. Eu comecei a pensar em unir o design à criação de eventos há cerca de quatro anos, quando descobri o design estratégico, algumas metodologias de design thinking e design de serviços. Comecei a estudar profundamente todos esses assuntos e a cada curso que fazia ou livro que lia, fazia mais sentido conectar esses dois temas. Este ano comecei a pesquisar quem mais estava unindo design a eventos e confesso que os resultados de uma pesquisa sobre isso são bem poucos ainda são poucos no mundo. Encontrei uma empresa na Suíça que se inspirou na metodologia de Business Model Generation para criar uma metodologia de design de eventos. Fiquei super feliz e na maior cara de pau do mundo mandei email pra eles. O resultado é que a Altos Eventos acabou traduzindo o canvas dessa metodologia para português (já disponível gratuitamente na internet) e no final de agosto participarei de um curso de certificação na Universidade de Amsterdã a convite da empresa. A ideia é ser uma facilitadora certificada para poder espalhar ainda mais esse novo jeito de pensar eventos pelo Brasil também.

Depois de todos esses anos de estudo e de uma especialização em Design na School of Visual Arts, em NYC, acabei criando o que chamamos aqui na Altos de metodologia DEE (Design de Experiência para Eventos). São ferramentas “roubadas”, como costumo falar, de outras pessoas que já usam o olhar do design para criar produtos e serviços. São abordagens abertas e gratuitas encontradas em livros e sites diversos, o que fiz foi apenas unir tudo isso num método e aplicar em diversos projetos, com diversas pessoas nesses últimos anos. Foi assim que, testando e aprimorando, chegamos nesse jeito de desenhar eventos.

Aqui vale uma referência bem bacana sobre “roubar”. Um dos livros mais inspiradores na minha vida de empreendedora é o Roube como um Artista. Já devo ter relido mais de dez vezes esse livro e procuro viver sempre buscando e roubando referências de diversas áreas para usar em projetos.

folha do livro "Roube como um Artista", de Austin Kleon
Página do livro “Roube como um Artista”, de Austin Kleon

2. Qual a principal diferença entre essa abordagem e o “modus operandi” dos produtores de evento em geral?

Costumo falar que existem três mudanças de modelo mental que esse novo jeito de pensar e criar eventos precisa gerar nos produtores.

O primeiro deles é entender que temos um usuário do evento. Participante, convidado, o nome não importa. A pessoa que vai no evento é a nossa prioridade máxima quando começamos a pensar um projeto. Muitas vezes somos contratados por clientes para fazer eventos, e por mais que seja o cliente que aprove as decisões e as etapas de criação, nosso foco é sempre o usuário do evento. Quem é esta pessoa que está indo no seu evento? Existem vários exercícios usados por designers, normalmente chamados de Persona, que ajudam a entender melhor o ponto de vista de quem estará usando o que estamos criando. Moral da história: deixe suas opiniões e percepções de lado, tente deixar as do seu cliente também. O foco aqui é quem usará o seu serviço, ou seja, quem irá no seu evento.

O segundo tem a ver com ampliar o porquê. Por que se faz um evento? Deu vontade? Tem que fazer? Sempre foi feito? Uma marca quer fazer um evento para promover um produto? Quer atrair mais clientes? Quer se promover? Ótimo. Mas pense que estamos convidando seu usuário do evento e dizendo para ele: “Chega mais aí nosso evento, a gente quer que você compre esse produto novo pra gente aumentar nosso lucro e tals.” Ele iria? Ele aceitaria? A gente não se dá conta, mas acaba produzindo muitos eventos que passam essa mensagem para as pessoas. E pior: muitas vezes é até inconsciente. A pessoa vai num evento, acha ruim, chato, sem sentido, sai falando mal da marca e a gente não tem a menor ideia do motivo, afinal de contas o evento foi tão bem produzido. Alguém já viu isso acontecer? Ou então a gente cria um evento peeeerfeito e ninguém se inscreve. Quem nunca? Por que será? Aí vale parar para pensar: esse evento foi feito pensando em mim ou em quem efetivamente será convidado? Moral da história: menos objetivo estratégico (a.k.a.: vender mais, promover marca, lançar produto, qualquer coisa do gênero) e mais: qual valor este evento entrega para as pessoas? Por que ela vai doar seu precioso tempo pra você, em vez de convidar aquela gata (ou gato, ou qualquer pessoa) pra sair, ver uma nova série no Netflix ou ficar o dia todo de pijama em casa? Sempre falo para as pessoas que trabalham comigo que se alguém veio no nosso evento a gente deveria ajoelhar e agradecer. Aleluia, entre tantas coisas que você poderia estar fazendo agora, você veio no nosso evento. A gente enxerga que isso faz sentido quando fala num serviço como restaurante, certo? A pessoa escolheu seu restaurante, vamos tratar ela super bem e pensar nela o tempo todo. A minha ideia é fazer exatamente isso com os eventos.

 

A última coisa, e talvez uma das mais importantes, é pensar em pontos de contado dentro de uma jornada do usuário no evento. Produtores de eventos usam checklists, cronogramas, planilhas. Isso é útil e faz parte dos projetos, mas não me fala nada sobre as pessoas. A jornada é que mostra a experiência que as pessoas irão viver naquele momento. Isso é um termo roubado da galera que trabalha com design de serviços e assim como os dois temas anteriores, não fui eu que inventei. Eu estudei as metodologias e aplico isso tudo a eventos. A moral da história aqui é desenhar, ponto a ponto, as interações do seu evento com as pessoas antes, durante e depois do evento.

3. O que uma pessoa que pratica essa abordagem deve esperar fazer a mais (ou a menos)? Que tipo de referências você procura?

Para mim, tudo é referência. Do que fazer e do que não fazer. Estou sempre indo em eventos e buscando analisar todos os pontos de contato dos eventos com as pessoas para enxergar coisas que posso copiar, testar, ou que não deveria fazer de jeito nenhum. Também estou sempre conectada com todos esses movimentos, cursos, livros e aulas sobre os temas que comentei ali em cima. Resumindo, estou sempre “metida” em coisas novas.

Uma das coisas que fiz pra abastecer minha vida com essas referências foi deixar de seguir todo mundo em redes sociais. Não sigo meus amigos, meus pais, ninguém. Desculpe se você me conhece e leu isso agora e ficou chateado, mas não te sigo. Eu enchi minhas redes sociais de pessoas, projetos, eventos, escolas, lugares que me inspiram, que me dão ideias, que eu quero visitar, que eu admiro. Quando abro uma rede social é um clima de “o que vou descobrir hoje?”. Um novo evento? Um novo projeto? Uma pessoa bacana? Se quero saber dos meus amigos, eu falo com eles. Se quero saber da minha mãe, hmmm, nem preciso querer saber, ela me liga quase todo dia mesmo. 😛

Também pensando na busca por referências, comecei um projeto chamado o mapa da inspiração, que pretende compartilhar essas descobertas com outras pessoas. Sempre que postava alguma coisa nova as pessoas curtiram, vamos ver se isso vira um mapa bacana de referências e inspirações pelo mundo. 😉

4. Quem está praticando isso hoje em dia?

Espero que pelo menos todos os alunos que já passaram pelas minhas aulas e workshops estejam praticando isso, rsss. Agora falando sério, tenho alguns eventos como referência (e inclusive busco patrocinadores maravilhosos que queiram bancar uma viagem volta do mundo vendo eventos pra poder extrair o melhor em termos de referências desses projetos. Se você tiver uma grana aí sobrando pra me financiar, super aceito!)

O TED, por exemplo, é uma grande referência em experiência de eventos. Tenho a sorte de estar próxima de pessoas que vão frequentemente à Conferência no Canadá e que sempre trazem histórias e insights que eu adoro. Sempre fico com aquela sensação de “uau” quando ouço falar sobe as Conferências TED.

5. Quem quiser se aprofundar no assunto, existe algum material, cursos, sites?

Acho super legal começar pesquisando o que é design de serviços. Um evento é um serviço, precisamos pensar, desenhar, construir e entregar dessa forma. Eu costumo falar que eventos são o pior tipo de serviço que existe, inclusive. Tudo vai dar errado no mesmo dia! Brincadeiras à parte, precisamos pensar num evento como um serviço e lembrar que temos que fazer tudo funcionar naquele momento.

Também daria uma olhada no Event Model Generation. A gente acabou de traduzir o canvas pra português! Tem que baixar e testar. Chamar um grupo de pessoas e rodar a metodologia para ver como funciona. Tem vários aprendizados legais para tirar desse método, super vale a pena.

Fora isso, todos os livros que conheço são focados em ferramentas, não existe um livro de design de experiência para eventos até onde sei.

6. Sem querer fazer o seu jabá, mas já fazendo um pouquinho. Sabemos que você lançou há pouco tempo alguns cursos sobre Design de Experiência para Eventos. Que mudanças você espera trazer para a vida dos seus alunos? Você já teve algum feedback de aplicação dos conhecimentos aprendidos no trabalho deles?

Faz alguns anos que dou aulas e workshops. Meu propósito é que todos os eventos sejam experiências mais incríveis, então quanto mais eu conseguir espalhar esse jeito de pensar e criar eventos, melhor. A ideia é contaminar meus alunos com esse pensamentos, e também entregar ferramentas para que eles criem seus próprios projetos. Já dei aula em algumas cidades no Brasil e é sempre uma troca super legal com as pessoas.

Temos várias metodologias à disposição, e explorar cada uma pra entender qual se adapta melhor aos projetos é algo que depende da pessoa, da empresa, do seu time e do seu tipo de evento, mas meu objetivo maior é inspirar as pessoas a pensarem eventos de uma forma diferente. A metodologia se adapta, mas o pensamento será esse fio condutor. Tenho uma bela implicância com a palavra feedback, prefiro falar com conversas abertas para trocar e evoluir, acho que faz mais sentido, sabe? Sempre converso com meus alunos e trocamos ideias e referências, e é muito legar ver o “despertar” deles para esse novo jeito de pensar e desenhar eventos.